O Mar.

um dia houve palavras

e elas fluíam num jorro verborrágico,

rápidas, como um rio caudaloso,

em direção ao mar.

embora eu não saiba mais a qual mar me dirigir,

sei que ele ainda há,

mas as palavras que antes vinham em jatos fortes

hoje são espremidas de um pano que enxuga pedras molhadas,

escorrem entre dedos

e pingam letra a letra,

num trabalho que espera um dia encher um mar,

embora saiba que mal preencherá um balde.

mas não é permitido cair,

não é de bom tom morrer,

e desistir é se humilhar diante do mundo

e, pior ainda, diante de si.

que caiam as letras gota a gota,

estarei aqui para juntá-las

uma a uma em palavras

e palavras em frases e versos

e versos em poesia e frases em parágrafos,

até que se ouça o som das ondas do mar

quebrando nas praias do lado de lá.

Cosmos

Quando as Palavras já não bastam
e o Silêncio, só, não se sustenta,
e os Olhares não se mantém firmes,
e os Abraços já se encontram frouxos,
e a Solidão é tudo o que envolve
o Mundo, como se fosse um pequeno ponto
no meio do Vazio imenso que é a existência,
traça-se o mapa e os limites da Vida,
entende-se o Incompreensível
rende-se à Impotência.

A criadora de mundos

Desde menina, ela sabia muito bem que ofício a acompanharia durante toda a vida, porque era assim que acontecia com os criadores de mundos. Ela não teve escolha, muito menos lutou contra seu destino: as palavras a escolheram e ela se curvou diante de sua intempestividade.

Porque os criadores de mundos têm, nas mãos, um poder que ao mesmo tempo em que liberta, escraviza. Ao passo que eles escoam por entre os dedos todo o fantástico do cotidiano e toda fantasia plausível, governam destinos, vidas e universos, eles também se prostram sob o jugo fascista das palavras.

A criadora de mundos não desconhecia nada disso, na verdade, o sabia e aceitava bem demais. Talvez, por isso, vivesse no próprio compasso, num fluxo de ideias que nem sempre estava em sintonia com a realidade. Por vezes, ela entrava em transe, seus pensamentos passeando distantes ao sabor da sua criatividade e obrigação. Que a julgassem louca, que pusessem sua sanidade à prova, não era importante. Ela fazia o que havia nascido para fazer.

Por muito tempo, esteve só. Por mais tempo ainda, teve companheiros de jornada. Alguns dividiam com ela o doce e amargo ofício de tecer palavras. Outros não faziam parte desse mundo, mas o aceitavam e admiravam. Por vezes, ela achava que seus irmãos de armas não a entendiam ou não conseguiam acompanhar seus momentos de surto criativo, em que escrever era uma outorga e não opção. Às vezes, esses companheiros de jornada realmente fingiam não entendê-la, apenas para se divertirem com sua exasperação que tornava corada a pele muito clara.

O que ela não sabia é que eles a entendiam, bem demais. Que a admiravam tanto que era melhor resguardar isso ao silêncio, perturbado apenas quando ela lhes cobrava opinião. Que sua sagacidade e destempero eram encantadores e que seu único limite era sua insegurança. Ah, sim, eles a entendiam, bem demais…

O que ela sabia é que não estava só. Talvez isso bastasse…

Nota de esclarecimento.

Hoje, infelizmente, o céu está azul demais para um texto meu, e o sol, brilhando demais, ilumina as minhas ideias acostumadas à escuridão, deixando exposta cada falha de raciocínio, fazendo com que se torne imoral trabalhar em meus projetos ou tentar moldar as palavras num dia como hoje, cheio de calor e ardendo em sons e vida: um dia intolerável.
Por isso,  excepcionalmente hoje,  não haverá texto meu por aqui. Ele não se encaixaria nesse efluxo de vida, não caberia na existência desse hoje.
Bom dia a todos.

perspectiva

Acordei de um sono profundo e sem sonhos ouvindo gritos distantes. À medida que fui despertando notei que eles estavam ocorrendo naquele instante e bem próximos a mim. A senhora da poltrona do corredor estava desacordada. O cara ao lado dela usava uma máscara de ar e tentava colocar outra nela. Pus a minha sobre o rosto enquanto olho o que parecia uma tempestade densa e trovejante pela janela.

Em meio aos gritos e comissárias de bordo pedindo para que as pessoas fiquem sentadas, a voz do piloto surgiu sintonizada em meio à confusão:

“Pedimos a todos os passageiros que se acalmem, pois a tempestade é forte, mas não é preocupante a ponto de alterar o curso do plano de voo.”

Quando os passageiros começaram a se acalmar, uma turbulência brusca sacudiu a todos novamente. As aeromoças caindo no chão, algumas bagagens de mão também foram parar no corredor ou até em cima de alguns passageiros. Sacolejar extremamente violento. Os trovões, ensurdecedores. Clarões iluminavam a escuridão maciça nas janelas.

Até que as luzes apagaram.

Gritos, choro, trovões. Cintos desafivelando. A comissária de bordo com o microfone a pedir que os passageiros próximos às saídas de emergência prestem atenção nas instruções de manuseio. Ninguém ouviu mais que isso. Uns simplesmente começaram a abrir e a pular. A pressão é vertiginosa. O cara ao meu lado pegou o assento flutuante e passou pela cima da senhora que estava desacordada. Tive a impressão que, entre os clarões de relâmpagos ela olhara pra mim e dissera com um riso macabro “vamos todos morrer”.

continua…

O Jardim

Há um jardim, onde rosas negras cantam sob um céu cinzento
Fazendo ao longe soar esse seu lamento
Choroso pela saudade de algo que nunca viram
Amargado por uma dor que nunca sentiram

Nesse jardim existem tulipas sombrias
Que sussurram entre si com vozes roucas e frias
Enquanto a tudo observam com seus olhares perdidos
Vigiando eternamente seus tesouros esquecidos

No jardim margaridas vermelhas dançam despreocupadas
Flutuando como almas perdidas e não mais encontradas
Iluminadas por arco-íris monocromáticos
E seus rostos brilhando com sorrisos estáticos

Há também girassóis nesse jardim
Cabisbaixos nessa longa noite sem fim
Esperando pelo nascer de um sol que não tem mais vida
Enquanto a lua ensanguentada ri enlouquecida

Vaso (conforme postado anteriormente no crapsiloqui)

eu te olho e não consigo entender tão bem
o que é que tantos que a viram enxergaram
enquanto tudo o que vejo é uma beleza
que me serve de admiração como um quadro numa galeria.

te vejo enxergando com dois pedaços do céu,
mas não me sinto mais próximo de lá por causa disso:
continuo terreno, e você continua de carne, osso e sangue.

tua pele é quente igual, teus dentes brancos iguais,
teus cabelos compridos iguais, tua mucosa rosada igual,
ainda assim, por que teimam em dizer-te diferente?

o que me parece é que és um objeto:
como um vaso que queremos muito colocar no centro da nossa mesa,
na sala da nossa casa,
para que as visitas olhem e pensem como temos enorme bom gosto;
ou como um livro que há tempos queremos ler,
e consumir, e consumar, e absorver;
ou como um carro potente que nos irá fazer parecer bem
diante dos nossos outros amigos homens,
que entendem tanto de carro,
e medem suas riquezas através de carros
e vivem através de carros,
indo de um lado para outro dentro deles,
mas nenhum deles contigo.

o que parece é que tem sempre alguém querendo te usar para alguma coisa,
como eu estou fazendo agora,
usando tua figura para me “inspirar”
e escrever esse poema.

mas não sei,
eu vivo errando,
eu vivo errado.

talvez essa seja somente outra vez que isso me acontece,
tudo bem.

mas e se eu não estiver e você for, de fato, tão objetificada quanto parece,
eu começo a me questionar,
será que você sente?

4 de 5 dentistas recomendaram este site WordPress.com